As montadoras chinesas ainda enfrentam grandes barreiras para entrar no mercado dos Estados Unidos, mas uma declaração recente de Donald Trump abriu uma possibilidade que até pouco tempo parecia improvável: fabricar os próprios carros em território americano.
Em entrevista à Fox News, o presidente dos Estados Unidos afirmou que aceitaria empresas chinesas instalando fábricas no país para produzir veículos localmente.
Segundo Trump, o ponto central seria a geração de empregos dentro dos Estados Unidos.
A declaração, porém, não significa que marcas chinesas como BYD, Geely ou outras tenham caminho livre para começar a vender carros no mercado americano.
Trump admite fábricas chinesas nos EUA
Durante a entrevista, Trump afirmou que, caso empresas chinesas decidissem construir fábricas nos Estados Unidos, essa possibilidade seria aceita.
Ele citou como referência fabricantes japoneses, que mantêm operações industriais importantes no país há décadas.
A lógica apresentada é diferente da importação direta de veículos produzidos na China: as fábricas estariam nos Estados Unidos, empregariam trabalhadores locais e produziriam dentro do território americano.
Essa distinção é importante porque os carros elétricos produzidos na China continuam enfrentando tarifas elevadas para entrar nos EUA.
Fabricar nos EUA não resolve tudo
Existe, porém, um obstáculo ainda mais complexo que as tarifas: a tecnologia embarcada nos veículos.
O Departamento de Comércio dos Estados Unidos estabeleceu regras específicas para carros conectados que utilizam determinados softwares e equipamentos associados à China e à Rússia.
As normas abrangem tecnologias de conectividade dos veículos e sistemas de direção automatizada.
Isso significa que apenas construir um carro dentro de uma fábrica americana não necessariamente seria suficiente.
Regra pode atingir até carros fabricados nos Estados Unidos
Esse é provavelmente o ponto mais importante da discussão.
A regra americana determina que fabricantes ligados à China ou Rússia ficam impedidos, a partir do ano-modelo 2027, de vender determinados veículos conectados nos Estados Unidos.
Segundo o Bureau of Industry and Security, essa restrição pode se aplicar mesmo quando o veículo é fabricado dentro dos próprios Estados Unidos.
A legislação também restringe carros que utilizem softwares de conectividade ou sistemas de direção automatizada ligados a empresas chinesas ou russas.
Já as restrições relacionadas a determinados componentes físicos de conectividade passam a valer posteriormente, a partir do ano-modelo 2030.
Por que os EUA restringiram essa tecnologia?
De acordo com o Departamento de Comércio americano, a preocupação envolve principalmente segurança nacional e proteção de dados.
Carros modernos possuem sistemas capazes de se comunicar externamente por meio de tecnologias como:
- Bluetooth
- Wi-Fi
- redes celulares
- telemática
- sistemas de localização
- tecnologias de direção automatizada
O governo americano argumenta que o acesso a esses sistemas por empresas consideradas vinculadas a governos estrangeiros poderia permitir coleta de dados sensíveis ou até acesso remoto aos veículos.
Então uma fábrica da BYD nos EUA seria possível?
Em tese, a declaração de Trump abre espaço político para que fabricantes chineses considerem produzir veículos dentro dos Estados Unidos.
Mas isso não significa que uma empresa como a BYD pudesse simplesmente construir uma fábrica e começar a vender sua atual linha americana.
As empresas teriam de encontrar uma estrutura compatível com as regras de software, hardware, propriedade e controle estabelecidas pelo governo dos EUA.
A regulamentação prevê mecanismos de autorização e avaliação específicos em alguns casos, mas mantém restrições explícitas para fabricantes considerados ligados à China.
O maior mercado que as marcas chinesas ainda não conquistaram
As fabricantes chinesas cresceram rapidamente na Europa, América Latina e outros mercados internacionais.
Os Estados Unidos, porém, permanecem praticamente inacessíveis para os grandes grupos chineses de automóveis de passageiros.
Por isso, uma eventual produção local poderia representar uma mudança importante na indústria americana.
Mas há uma diferença enorme entre permitir uma fábrica chinesa nos Estados Unidos e permitir que seus veículos sejam comercializados normalmente no país.
Hoje, tarifas, regras de conectividade e questões regulatórias continuam tornando essa entrada muito mais complicada.
E justamente por isso a declaração recente chama atenção: ela sugere uma abertura para investimentos industriais chineses, embora as barreiras tecnológicas continuem em vigor.

