Em uma análise que reflete as profundas transformações no cenário tecnológico da Ásia, o presidente sul-coreano Lee Jae-myung afirmou que a China já alcançou ou até superou a Coreia do Sul em diversos setores tecnológicos. Esta declaração foi feita durante uma entrevista com o China Media Group (CMG), pouco antes de sua visita oficial à China, que contará com uma delegação de aproximadamente 200 representantes de empresas sul-coreanas.

Transformação nas relações econômicas

Segundo Lee, a antiga estrutura de cooperação econômica entre a Coreia do Sul e a China era vertical, com a Coreia fornecendo tecnologia avançada e capital, enquanto a China contribuía com a mão de obra. No entanto, a rápida evolução da China transformou essa relação, exigindo uma abordagem mais horizontal e igualitária. O presidente sul-coreano destaca que a colaboração futura deve focar em campos avançados, como inteligência artificial e indústrias de alta tecnologia, que estão cada vez mais interligados com a indústria automotiva e o desenvolvimento de software veicular.

O setor automotivo é um exemplo claro dessa dinâmica em mudança. Atualmente, a China se destaca como o maior produtor e exportador mundial de veículos de nova energia, enquanto a Coreia do Sul continua a ser um jogador chave em manufatura automotiva, eletrônica de potência e cadeias de suprimento de baterias. Os fabricantes chineses ampliaram suas exportações e acesso a mercados internacionais, enquanto os sul-coreanos permanecem dependentes da China como uma importante base de produção e mercado de vendas.

Conflito e concorrência no setor de baterias

As cadeias de suprimento de baterias revelam a interdependência e competitividade entre os dois países. As empresas chinesas dominam a produção global de baterias de fosfato de ferro-lítio e controlam grandes porções do processamento inicial de lítio, cobalto e grafite. Enquanto isso, as empresas sul-coreanas, que são fornecedoras principais de baterias de lítio ternárias utilizadas por montadoras globais, incluindo o Hyundai Motor Group, enfrentam uma concorrência crescente de alternativas chinesas de baixo custo, especialmente com o aumento da adoção de veículos elétricos.

Outro aspecto crítico é o software veicular e os sistemas de condução inteligente, onde as fronteiras competitivas estão se estreitando. Montadoras chinesas têm acelerado a implantação de sistemas avançados de assistência ao motorista e sistemas operacionais veiculares em modelos de massa. Por sua vez, os fabricantes sul-coreanos aumentaram seus investimentos em veículos definidos por software e pesquisa em direção autônoma.

Dados do comércio e relatórios da indústria indicam que as exportações de veículos chineses para a Coreia do Sul aumentaram, ao mesmo tempo em que os fornecedores de peças sul-coreanos sentem a pressão crescente dos fabricantes de componentes chineses em áreas como motores elétricos e eletrônica de potência.

O que isso significa para o Brasil

A crescente competitividade entre a China e a Coreia do Sul no setor automotivo pode ter ramificações para o Brasil, que busca ser um hub para a produção de veículos elétricos na América Latina. A colaboração em pesquisa e desenvolvimento, bem como a necessidade de inovações em baterias e eletrificação, são tendências que o Brasil pode considerar, especialmente em parceria com empresas sul-coreanas que já possuem um histórico robusto na indústria.

Além disso, a crescente interdependência na cadeia de suprimento de baterias apresenta uma oportunidade para o Brasil se tornar um jogador importante na produção de matérias-primas, especialmente considerando suas reservas de lítio e outros minerais críticos. O cenário de competição que se desenha na Ásia pode servir como um alerta para a necessidade de estratégias de inovação e parcerias robustas no Brasil.