A Changan Automobile apresentou em 16 de outubro, no Mondial de l'Auto 2026, em Paris, a gama global com que pretende deixar de ser apenas uma exportadora e se consolidar como operação industrial nos mercados em que atua. O pacote levado ao salão francês reúne o SUV híbrido CS55 PLUS BlueCore HEV, o elétrico NEVO Q05 e o conceito de luxo AVATR T09, além da atualização do plano Vast Ocean — mais de 40 modelos globais previstos e capacidade de produção fora da China superior a 800 mil unidades. A América Latina aparece no comunicado como "mercado estratégico", com lançamentos já feitos na Colômbia e no Uruguai e sequência prevista em Equador, Chile e Peru. O Brasil não é mencionado no material distribuído pela fabricante.
O que a Changan mostrou em Paris
O Mondial de l'Auto 2026 — o Salão de Paris — abriu as portas em 13 de outubro e recebeu a Changan em um evento próprio para a imprensa. A marca chinesa iniciou a ofensiva europeia em março de 2025, com o lançamento das marcas CHANGAN e AVATR na Alemanha, e hoje está presente em 15 mercados do continente. Em Paris, a novidade é a chegada da linha NEVO à Europa.
O NEVO Q05 é o modelo com o discurso mais completo. Trata-se de um SUV elétrico familiar do segmento B+, o mais vendido da linha NEVO na China e o primeiro produto da família desenvolvido desde o início para mercados globais. O material divulgado em Paris aponta autonomia de até 450 km no ciclo WLTP e recarga rápida de 30% a 80% em cerca de 15 minutos; na Europa, as vendas estão previstas para o primeiro trimestre de 2027. O NEVO Q06 e o NEVO A06 completam a estreia europeia da linha.
Já o CS55 PLUS BlueCore HEV fez em Paris sua primeira aparição fora da China. O SUV usa a arquitetura iDE-H, que dispensa recarga externa — ou seja, é um híbrido convencional, e não um plug-in — e será introduzido de forma progressiva na América Latina, segundo a fabricante, sem cronograma detalhado.
Fecham a lista de produtos o DEEPAL S07 PHEV e o DEEPAL S05 PHEV em versão de direção à direita, os dois primeiros híbridos plug-in da marca preparados para o mercado europeu, e o AVATR CONCEPT T09, SUV-conceito apresentado em Paris — a fabricante o descreve como estreia mundial — e que representa o flanco premium do grupo.
Plano Vast Ocean: 40 modelos e 800 mil unidades fora da China
A parte mais relevante do anúncio não está nos carros, e sim na escala que a empresa diz querer atingir. A Changan encerrou 2025 com 2,913 milhões de veículos vendidos no mundo, alta de 8,5% sobre o ano anterior. Desse total, 1,109 milhão foram veículos de nova energia — elétricos e híbridos plug-in —, crescimento de 51%, e 637 mil unidades foram para mercados externos, avanço de 18,9%.
- 2,913 milhões de veículos vendidos no mundo em 2025 (+8,5%)
- 1,109 milhão de veículos de nova energia (+51%)
- 637 mil unidades vendidas no exterior (+18,9%)
- +40 modelos globais previstos na atualização do plano Vast Ocean
- +800 mil unidades de capacidade produtiva fora da China
A atualização do Vast Ocean é o que sustenta o discurso de "enraizamento": a empresa afirma apoiar-se em um sistema de pesquisa e desenvolvimento distribuído por cinco países e nove centros, o que lhe permitiria validar produtos com padrões globais uniformes e adaptá-los a cada região. É a mesma lógica que a Changan aplica à Europa, onde soma 25 anos de presença comercial, e agora tenta replicar na América Latina.
América Latina: o roteiro que a empresa confirmou
Para a região, o discurso oficial troca a palavra exportação por industrialização. A empresa resume a estratégia em uma fórmula repetida no comunicado, e que aparece como justificativa para a escolha dos países:
"A América Latina é um mercado estratégico. Materializamos o princípio 'Na América Latina, para a América Latina' e aceleramos a transição da exportação de produtos para o enraizamento industrial."
Na prática, o cronograma divulgado é curto e específico, e concentra-se na costa do Pacífico e no Cone Sul:
| Modelo | Tipo | Situação na América Latina |
|---|---|---|
| NEVO Q05 | SUV elétrico | À venda na Colômbia e no Uruguai desde agosto de 2026; chegada prevista a Equador, Chile e Peru |
| CS55 PLUS BlueCore HEV | SUV híbrido (iDE-H, sem recarga externa) | Introdução progressiva, sem datas divulgadas |
| DEEPAL S05 e S07 | SUVs (versões PHEV na Europa) | Em fase de expansão regional |
| AVATR CONCEPT T09 | SUV-conceito de luxo | Apresentado em Paris; expansão premium prevista para a região |
O NEVO Q05 é o produto com a situação mais avançada. O SUV elétrico começou a ser vendido em agosto deste ano na Colômbia e no Uruguai — dois mercados pequenos, mas usados pela marca como teste de aceitação regional — e tem chegada prevista a Equador, Chile e Peru. O CS55 PLUS BlueCore HEV vem depois, sem data, e os DEEPAL S05 e S07 entram na fase de expansão. O AVATR CONCEPT T09, exibido como conceito, sinaliza que o grupo pretende levar também o posicionamento premium à região.
Por que o Brasil não aparece no comunicado
Nenhum trecho do material distribuído em Paris cita o Brasil — e isso não significa que a Changan esteja fora do país. A operação brasileira é conduzida pela CAOA, que desde novembro de 2025 importa, distribui e monta os veículos da marca em Anápolis (GO). O comunicado de Paris descreve outro canal: a expansão própria do grupo na América Latina, com lançamentos na Colômbia, no Uruguai, no Equador, no Chile e no Peru.
São duas estruturas comerciais distintas. O Brasil entrou no mapa da Changan pela parceria com a CAOA, com portfólio próprio (UNI-T, CS75 e CS55) e produção local; a ofensiva anunciada no salão francês trabalha com as linhas NEVO, DEEPAL e AVATR em mercados onde o grupo atua diretamente. Nenhuma das duas frentes confirma, por ora, data para o NEVO Q05 no mercado brasileiro.
O salão parisiense também serviu de vitrine para outros lançamentos que interessam ao mercado brasileiro — caso do Hyundai Bayon 2027, apresentado na mostra com motores turbo e versão híbrida prevista para a Europa. O mapa completo da operação brasileira está em Qual a presença da Changan no Brasil?.
withU: pós-venda como argumento de venda
Junto com os produtos, a Changan apresentou em Paris a withU, sua marca global de atendimento ao cliente. O programa cobre pós-venda, manutenção, assistência em estrada e rede de serviços autorizada. Para a América Latina, a empresa afirma estar aperfeiçoando o estoque de peças, a assistência e os serviços complementares — itens que, em mercados onde a marca ainda é nova, costumam pesar mais na decisão de compra do que a ficha técnica.
Na Europa, o desenho é mais concreto e serve de referência para o que a empresa promete repetir. São quatro centros regionais de peças — Países Baixos, Reino Unido e Espanha —, com disponibilidade acima de 97%, entrega em 24 horas nas principais cidades e em até 72 horas no restante do continente. Um call center na Romênia opera sete dias por semana, oito horas por dia. A rede comercial deve chegar a quase 400 pontos em 15 países até o fim de 2026 e a 650 pontos em 2027. O grupo soma oito subsidiárias europeias, mais de 800 funcionários — 80% deles locais — e planeja contratar outros 350 nos próximos três anos.
Luís Figo é o novo embaixador da marca
No capítulo de marca, a Changan anunciou o ex-jogador português Luís Figo como Embaixador de Experiência de Produto. Segundo o comunicado, o ex-craque dirigiu um dos modelos da marca pelas ruas de Paris durante o evento e passa a representar a empresa em ações globais — inclusive na América Latina, onde o futebol tem peso comercial evidente.
Transmissão oficial da Changan no Mondial de l'Auto 2026, publicada no canal da marca no YouTube.
O que observar a seguir
Para o leitor brasileiro, três sinais merecem acompanhamento. O primeiro é o portfólio: NEVO e DEEPAL, as linhas levadas a Paris, ainda não têm presença confirmada no Brasil, onde a operação da CAOA trabalha com UNI-T, CS75 e CS55. O segundo é a eletrificação: o CS55 PHEV, primeiro híbrido plug-in flex da marca, estreou mundialmente no Brasil em setembro e indica por onde a eletrificação deve caminhar por aqui. O terceiro é a relação entre as duas estruturas — se a matriz passar a usar Anápolis como base de exportação para os vizinhos, o Brasil deixa de ser apenas mercado e entra no mapa industrial da empresa.
Enquanto isso, o anúncio de Paris deve ser lido pelo que ele é: a confirmação de que a América Latina entrou no mapa estratégico da companhia, com um roteiro de países que, por ora, não inclui o Brasil — porque o Brasil já tem outro caminho. O noticiário de lançamentos e de movimentos do setor segue em Mercado e em Carros Elétricos.
Crédito das imagens: Divulgação / Changan Automobile, fotos oficiais distribuídas com o comunicado no Mondial de l'Auto 2026. Com informações de EFE Comunica e do newsroom global da Changan.

